terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Ano de Excelência do Desporto Em Espanha – 2008


O ano que agora chega ao fim ficará na memória do Desporto em Espanha. Foi um ano épico para “nuestros hermanos”. Baseando-se no crescimento que se tem vindo a notar ano após ano, atingiu este ano resultados excepcionais e que mostram bem o investimento que é feito no lado de lá da fronteira.

Este crescimento mostrou ao mundo uma superpotência desportiva de excelência e que reflecte a pujança da sua economia e o vigor e mobilização da sua sociedade no geral.

A Espanha é cada vez mais respeitada pela sua capacidade a nível mundial. Esse crescimento tem sido acompanhado pelos resultados desportivos ao longo dos últimos anos. Fortemente incentivado pela realização dos Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona, o desporto espanhol não estagnou, antes avançou cada vez mais chegando neste ano de 2008 ao seu ano-maravilha.

Comecemos pelo Futebol. Se ao nível dos clubes o seu poderio é conhecido desde há muito, este ano viria a mostrar-nos uma Selecção que encantou os amantes do desporto-rei no Europeu da Áustria-Suíça. Um futebol fantástico levou-os a uma conquista indiscutível e por todos reconhecida como justa. A equipa que sistematicamente era vista como a grande decepção em todas as grandes competições conseguiu desta feita deitar para trás esse estigma e conquistar o troféu, deitando para trás anos de desilusões sucessivas. Os nomes de Casillas, Sérgio Ramos, Iniesta, Xavi, David Villa e Fernando Torres foram aqueles que mais se destacaram.

Se ao nível do futebol a conquista do Europeu foi um facto de maior importância então que dizer do Ténis espanhol? Os espanhóis têm já grande tradição nesta modalidade – sobretudo na terra batida. E é na terra batida que ao longo dos anos foi afirmando a sua qualidade. Mas como não podia deixar de ser 2008 marcou a conquista de um patamar ainda mais elevado.
Começando por Rafael Nadal. O maiorquino foi absolutamente sublime neste ano, merecendo todas as honras (na minha opinião é um sério candidato ao Laureus Award de 2008). De maior realce o facto de ter destronado o campeoníssimo Roger Federer do posto de nº 1 ao fim de mais de 3 anos. Para o conseguir teve de efectuar aquela que foi a melhor temporada da sua carreira. Semi-finalista na Austrália e nos Estados Unidos (Hard Court), venceu em Roland Garros (4ª vitória consecutiva) e conseguiu o maior feito de todos: derrotou Federer no seu “quintal” de Wimbledon. A cereja no topo do bolo foi colocada em Pequim com a conquista da medalha de ouro no torneio individual dos J.O.
Mas nem só de Nadal vive o ténis espanhol. Mesmo sem o seu representante supremo os espanhóis conseguiram arrebatar para si a Taça Davis num duelo fantástico em solo argentino, contra a equipa local. A Argentina tinha um recorde de invencibilidade em sua casa. Ainda para mais desfalcados do seu nº1 os espanhóis eram tudo menos favoritos. No entanto Fernando Verdasco, Feliciano Lopez e seus companheiros não se atemorizaram e trouxeram para casa o troféu maior do ténis mundial.

Ainda no que a desportos de massas diz respeito é também assinalável o sucesso espanhol no Ciclismo em 2008. Venceram as 3 (!!) grandes voltas – Giro, Tour e Vuelta – e ainda a prova dos Jogos em Pequim. Os heróis desta façanha: Carlos Sastre (Tour), Alberto Contador (Giro e Vuelta) e Sánchez (J.O.). Mas não se pense que eles são um caso único. Pois há muitos ciclistas de topo no pelotão mundial. Em Portugal também podemos apreciar o poderio da Invencível Armada castelhana. David Plaza, Hector Guerra e Xavier Tondo são aqueles que nos últimos anos têm dominado as estradas lusitanas.

Depois há os desportos de pavilhão onde os espanhóis também se destacaram.
No Basquetebol os actuais campeões do Mundo e finalistas vencidos do campeonato da Europa alcançaram a medalha de prata nos Jogos, apenas sucumbindo frente ao poderosíssimo Dream Team norte americano.
Em Andebol e Voleibol estamos já acostumados a assistir ao domínio dos seus clubes nas provas continentais (tal como em 2008) e ultimamente também se pode ver esse reflexo ao nível das selecções.
Por fim o Hóquei em Patins. Em 2008 mais um campeonato do Mundo se juntou ao palmarés de Espanha. Recordo que a selecção de Espanha tem sido sucessivamente campeã tanto do Mundo como da Europa. No Hóquei tal como nas outras modalidades o domínio não se fica na sua Selecção. Os seus clubes são também eles campeões continentais frequentemente.

Na NBA também se vai notando um crescimento na representatividade e também na qualidade dos interpretes espanhóis. Uma das grandes vedetas é hoje em dia Pau Gasol – só a sua chegada a L.A. permitiu a chegada à Final da competição e a afirmação definitiva dos Lakers. Mas não é o único. Jorge Garbajosa, José Calderon, Marc Gasol e alguns outros têm vindo a ganhar um lugar de destaque entre as estrelas do “maior espectáculo do Mundo”.

Suficiente? Ainda não. Mais exemplos? No Golfe foi um espanhol que conseguiu os melhores feitos do ano (desculpem mas não me lembro do nome – acho que é um tal de Molina). Em desportos motorizados também tem sido recorrente ver o nome de pilotos castelhanos no lugar mais alto do pódio: Carlos Sainz nos Rallys de Todo o Terreno, Marc Coma e outros motards no Rally Dakar, Fernando Alonso na Fórmula 1, Daniel Pedrosa e Jorge Lorenzo em Moto GP. E pensem bem no que estes resultados traduzem ao nível de investimento e de patrocínios ao mais alto nível por parte das grandes marcas espanholas (Repsol, Motorola, Cepsa, entre muitas outras).

Reflexão:

Para terminar partilho apenas uma reflexão que me ocorre variadíssimas vezes quando vejo estas conquistas do desporto dos nossos vizinhos. Tento nessas alturas recordar o nível elevado de auto-estima colectiva que surge num momento desses. De cada vez que temos um Sérgio Paulinho, um Francis Obikwelu, um Nelson Évora ou uma Vanessa Fernandes todo o nosso país exulta de alegria (legitimamente, claro). Agora imaginem o que é assistir a todos estes feitos por parte dos seus desportistas por parte dos nossos vizinhos espanhóis. São feitos ao mais alto nível. Campeões de modalidades altamente competitivas e de propaganda mundial. E atenção, estamos a falar de um país com 45/50 milhões de habitantes, não de uma Rússia, China ou Estados Unidos.

Serve tudo isto para dizer que se há um capítulo que admiro o povo espanhol e o seu desenvolvimento recente é no capítulo desportivo. Porque entendo que o Desporto traduz muitas vezes o estado de desenvolvimento de um país – e como isso é verdade no caso de Espanha!. Creio mesmo que seria de todo o interesse que de certa forma pudéssemos copiar o seu modelo de desenvolvimento. Se bem que tenho presente as nossas limitações de nível financeiro e também cultural, onde o futebol é rei e senhor das nossas atenções.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Hugo Leal – Como não Gerir uma Carreira

A primeira memória que tenho do Hugo Leal enquanto jogador remonta há cerca de 12/13 anos, quando o vi jogar em Santarém com a camisola dos Juniores do Benfica contra o União local. O resultado não recordo bem, no entanto havia algo de especial naquele míudo. Destacava-se de todos os outros pelo seu toque de bola e sobretudo pela elegância. No final do jogo tive oportunidade de trocar algumas palavras com o aspirante a craque e fiquei muito impressionado. Mostrava ser uma anti-estrela e também um jovem com os pés bem assentes no chão. Com uma postura bem diferente daquela que sempre me habituei a ver nos jovens craques, foi fácil perceber que estava na presença de um jogador com bastante futuro. Desde muito novo que foi internacional e teve uma ascensão meteórica tanto no seu clube como nas camadas jovens da Selecção – chegou inclusive a ser chamado à equipa principal de Portugal.

Todos os que os viam jogar, desde treinadores, colegas, adversários e jornalistas, lhe previam um futuro brilhante. E de facto tinham razão. O que acho que falhou na sua carreira foi a gestão que fez da mesma. Vamos por partes…

Meses depois do jogo que tive oportunidade de ver em Santarém, o Hugo Leal estreou-se no Benfica pela mão de Manuel José. Na altura com 16 anos, foi uma autêntica bomba. Um míudo das escolas a estrear-se com a camisola do Benfica. Era o confirmar das impressões que tivera antes – o rapaz era mesmo craque. No ano seguinte esteve emprestado ao Alverca, onde formou uma dupla que ainda hoje é falada, com Deco (e como diferiram depois as suas carreiras). Após esse ano de aprendizagem e crescimento voltou à equipa principal do Benfica onde começou a brilhar cada vez mais. Na época seguinte caiu de vez no goto de todos, assinando exibições muito interessantes e afirmando-se cada vez mais. Acarinhado pelos benfiquistas, colocado ao nível das estrelas do clube, tinha tudo para crescer na Luz e projectar-se para um patamar muito elevado. No entanto foi nesta altura que as escolhas (erradas) viriam a tornar-se preponderantes na sua carreira. A sua rescisão bem polémica marcou a sua carreira como futebolista na minha óptica. Foi uma imagem da qual nunca mais se conseguiu livrar. Até em termos psicológicos isso se notou.

Chegado a Madrid ainda muito jovem e depois de um processo de grande desgaste (no qual viria a ser condenado a indemnizar o Benfica) conseguiu fazer 2 boas épocas com o Atlético antes de se transferir para Paris. Em Madrid protagonizou com Dani uma dupla de sonho para todos os “colchoneros”. Dois míudos cheios de talento e que ainda para mais eram os meninos-bonitos por onde quer que passassem. Curioso como em ambos os casos a sua carreira teve um desenrolar bem diferente do que lhes era augurado. O salto para Paris, onde vestiu a camisola do P.S.G., não surpreendeu. Foi contratado como grande estrela, com um super-ordenado. Era o mais bem pago da equipa – à frente de Ronaldinho Gaúcho por exemplo (!?!). Porém o seu futuro em Paris foi destroçado devido a esse mesmo detalhe – o ordenado. Juntando a isso uma lesão e exibições fracas o resultado era óbvio, a dispensa.

Foi então que regressou a Portugal. Contratado pelo F.C. Porto na época pós-Mourinho pensou-se que poderia ser um relançar da carreira ao mais alto nível. No entanto a sua carreira ainda não tinha entrado na parte mais descendente. Seguiu-se meia temporada na Académica de Coimbra (onde esteve em muito bom plano), uma passagem discreta por Braga e um ano praticamente parado no Belenenses. Agora retomou a carreira… no Trofense.

E é neste ponto que me queria focar. Vi no outro dia uma entrevista a Hugo Leal. No programa estavam também o João Pinto (seu ex colega no Benfica) e Luís Freitas Lobo. Foi constrangedor. Ambos estavam visivelmente inibidos ao comentarem a carreira e potencialidades do jogador. Ficou a sensação de que às tantas lhes apetecia dizer: “epá como é que chegaste a este ponto? Um jogador como tu?”. O próprio jogador parecia basear o seu optimismo num passado já bem longínquo.
Às tantas o entrevistador colocou uma questão pertinente: “Como se sente quando vê Simão Sabrosa (sobretudo este), um seu ex-colega de Selecção e também ele um míudo-promessa, brilhar e ter uma carreira notável?”. Foi notório o “engolir em seco” de Hugo Leal.

Fica a lição. Uma carreira de futebolista constrói-se ao longo de 10/15 anos ao mais alto nível. O que aconteceu a Hugo Leal foi o inverso. Inicio fulgurante é certo. Mas agora que está com um pouca mais de meio da mesma dá por ele a jogar no Trofense, depois de muitas experiências falhadas nos últimos anos. Ele que já jogou (e brilhou) ao lado de grandes craques – Ronaldinho, Simão, Deco – vê-se agora a disputar um lugar no meio-campo da equipa da Trofa, lutando para não descer de divisão. Hugo Leal quis crescer muito depressa e foi vítima disso mesmo.

Bem sei que as lesões têm desempenhado um papel muito importante na falta de rendimento continuado de Hugo Leal, no entanto creio que o episódio que passou com o Benfica manchou desde muito cedo a sua carreira. Sempre que o seu nome vem à baila não há ninguém que se esqueça dessa traição que protagonizou a quem tanto acreditou no seu valor e acarinhou.

Nos anos que passou em Espanha e França ganhou muito dinheiro certamente. Aquando do seu regresso a Portugal para representar o Porto também deverá ter conseguido negociar um bom contrato. A parte financeira não deve ser o maior pesadelo de Hugo Leal. Nada lhe deve pesar tanto como pensar no que já foi enquanto jogador e no que é actualmente – um jogador, uma ex-promessa, em busca de um relançar de carreira (mais um?). Dá que pensar…

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Um Olhar Sobre o Fim-de-Semana – 29/11/2008 a 01/12/2008


Mais um fim-de-semana passou com muito futebol. Sobretudo futebol.
Começo por realçar um aspecto positivo já que essa é a melhor forma de começar. Com as boas notícias.

No jogo entre Sporting e Vitória Guimarães (2-0) destaco duas prestações:
Pereirinha: já no jogo do meio da semana contra o Barcelona me tinha parecido bastante feliz a sua adaptação a lateral direito. O jogo de Domingo confirmou essa impressão positiva deixada anteriormente. É um jogador em quem Paulo Bento tem apostado continuamente, no entanto o máximo a que estamos habituados a vê-lo em campo são 15 a 20 minutos por partida – manifestamente pouco. Vamos ver se consegue em primeiro lugar manter-se nas apostas iniciais do treinador e, em 2º, confirmar as boas exibições em futuras ocasiões. Abel que se cuide

Manuel Cajuda: sou um admirador da personalidade e postura do algarvio. Há muita gente a quem não agrada a sua postura, ironia e inconformismo. A mim contínua a agradar-me bastante. Gosto muito de como jogam as suas equipas e é costume vê-lo fazer muitas “gracinhas”, como gosta de lhes chamar. A sua passagem por Guimarães tem sido espectacular – pena a não qualificação para a fase de grupos da Liga Campeões. No entanto realço apenas um ponto que a meu ver tem sido menos positivo. É que no confronto com os 3 grandes durante estas duas temporadas de Primeira Liga tem sido escasso o seu amealhar de pontos. Se a memória não me atraiçoa apenas conseguiu um empate na Luz e uma vitória sobre o Sporting em Guimarães, ambas no ano passado. Fora isso tem acumulado desaires e, principalmente, exibições descoloridas e bem abaixo do que esperamos do Vitória (legitimamente)

Passando ao jogo entre Porto e Académica (2-1), cujo resultado não expressa a superioridade evidenciada ao longo de todo o jogo, faço dois destaques altamente negativos e realço mais uma prestação excelente:

Pavlovic: este jogador sempre me pareceu bastante agressivo e pouco dotado tecnicamente. Dos poucos jogos que tenho visto da Académica parece-me ser um jogador que serve principalmente para dar consistência e força à defesa e meio-campo defensivos da Briosa. Ora neste jogo conseguiu agredir 3 (!!!) vezes o jogador Hulk, passando sempre incólume. Sempre que havia um choque entre os 2 era vê-lo direccionar um cotovelo à cara do brasileiro no meio da confusão. No primeiro lance em que tal aconteceu o livre daí resultante deu origem ao 1º golo do Porto. Crime e Castigo.

Sougou: o que passou pela cabeça do jogador? A entrada sobre Fernando foi mesmo daquelas que nos obriga a desviar o olhar. É sobretudo evidente quando vemos em câmera lenta e vemos Sougou a despir verdadeiramente a meia ao médio do Porto. Arrepiante.

Hulk: este jogador é fantástico. Desde o 1º momento em que o vi com alguma atenção que acho que é um jogador que pode dar muito ao Porto. Uma contratação bem feliz – embora muito questionada ainda hoje devido ao seu valor e proveniência. A palavra que me vem à cabeça é Impressionante. Por tudo, pela força, destreza, aplicação, etc…

Sobre o jogo do Benfica contra o Setúbal (2-2) destaco sobretudo a nomeação de Katsouranis para capitão. Ainda para mais estando Quim em campo. A mim agrada-me pois o grego é dos jogadores que mais gosto de ver jogar no Benfica. Aprecio sobretudo a sua capacidade de aparecer em zona de finalização quando joga no meio-campo. Tem praticamente uma oportunidade de golo por jogo.

Lá por fora reforço 2 ideias que me acompanham desde há muito:

Scolari: agora que está na moda louvar o Sargentão pela sua passagem pela Selecção (principalmente pelas fracas prestações neste início de Carlos Queirós) e pelo início de época em bom nível no Chelsea, deixo aqui a minha opinião. Scolari vai falhar em Inglaterra porque é mau treinador e porque o espírito dele não se vai adequar às exigências. Relembro que nos jogos a doer tem acumulado desaires ou empates (Manchester United, Liverpool, Arsenal, Roma, Cluj, Bordéus), tendo sido também eliminado pelo Burnley da Taça da Liga, jogando em casa (afinal não é só Queiróz que facilita em jogos fáceis). Sempre o achei um fraco treinador (apenas destaco o espírito de grupo que incute nas suas equipas) e agora que o vejo no banco dos londrinos confirmo essa impressão. Muitos ficaram impressionados com o seu início de época, como quem diz “olha, afinal o homem até é bom”. Contudo uma época é muito longa e é nos jogos a doer que se vêem os bons treinadores.

Pepe: este Sábado Jorge Valdano escreveu sobre ele na crónica que assina para A Bola. Focou um aspecto de Pepe com o qual não posso estar mais de acordo, disse que ele é fantástico e cheio de atributos notáveis mas que comete falhas em todos os jogos – invariavelmente. Pode fazer uma exibição notável mas é muito raro haver um jogo em que não cometa um deslize de alta gravidade.
Digo o mesmo. Sobretudo desde que saiu do Porto que vemos um Pepe cheio de (exagerada) confiança – será vaidade?, e com aquela mania de “ir a todas”. Irrita-me essa postura até porque se quisermos ver sem entrar naqueles histerismos tão portugueses, é um facto que apesar de ter condições para ser um excelente defesa-central, Pepe abusa da confiança com que encara os lances.